Hiato de ano-novo # 1 - Natal de transição

O primeiro grande acontecimento deste hiato foi o Natal. Não vou dedicar meu tempo à já desgastada discussão sobre o sentido do natal, assunto que neste ano foi retomado pelo papa, reclamando do perfil consumista e absolutamente ateu que a festa tomou. De fato, o velho pontífice não está errado, mas uma vez que resolvi assumir que sou agnóstico, devo dizer que mesmo que se trate de uma data, na prática, pagã, me agrada a oportunidade de rever amigos familiares, de entrar em contato, ainda que indireto, com tantos outros, de forma a corrigir, ainda que superficialmente, a ausência consentida do ano todo e manter os vínculos ativos; porque apesar de os relacionamentos familiares não serem como contas de e-mail que são desativadas após certo período de desuso, se não forem minimamente nutridos, secam e tornam-se meras casualidades documentais.
Já que o Natal será então tratado, aqui neste blog, como uma oportunidade de reencontro, um pedaço dele se iniciou na confraternização da empresa. Além do tradicional futebol, houve o igualmente previsível, e nem por isso menos importante amigo secreto. Só quero resgatar aqui um fato curioso. Meu amigo secreto transformou uma declaração que dei dizendo que eu queria um livro sobre, entre outras coisas, filosofia – que é um tema que me agrada, apesar do meu quase completo desconhecimento - em uma descrição do tipo “meu amigo secreto disse que é um amante da filosofia”. Acredito que as percepções tenham sido diversas a respeito disso, e até mesmo a minha falta de habilidade no futebol foi justificada pelo tal amor. No fim, fiquei constrangido, mas me preocupei em não desmentir minha amiga, agora revelada, afinal, isso não é coisa que se faça com amigos. Apesar de tudo, o livro não era sobre filosofia, mas uma divagação insólita de Saramago sobre a morte e suas várias relações com a humanidade. Livro bom, que me apresentou a este escritor e seu estilo de escrita. Se notarem que minhas frases se tornaram mais longas nestes últimos posts, podem tirar daí a causa.
Voltando à família, o Natal foi muito agradável. Decidi que minhas recentes incursões pela literatura, expressas por leituras mais freqüentes e abrangentes, e até mesmo por este delicioso exercício blogueiro, deveriam nortear minha lista de presentes - já que os regalos que damos devem não só agradar a quem os recebe, mas também dividir um pouco da alma daqueles que os dá, senão tornam-se impessoais e insignificantes. Não quero que minhas mais sinceras intenções de agrado devam ser resumidas à função de completar um guarda-roupa ainda despreparado para a próxima estação, ou que a força de uma campanha publicitária ou de uma marca fique gravada de forma mais intensa na memória daqueles que quero agradar do que a minha própria figura como doador de parte de meus esforços pessoais sob a forma de presentes – muito menos quero resumir o meu gesto de doação a algo quase que absolutamente abstrato e impessoal quando compro qualquer coisa de preço acessível por uma dita obrigação social. Passei um tempo pensando em escrever algo para aqueles que eu gostaria de presentear. A idéia me agradou e até empolgou, mas tive que admitir que eu não teria tempo para tal. Acabei por tornar a lista menor, mas tive a preocupação de dar um livro para cada um. Um livro escolhido de forma muito especial, sem qualquer pretensão de educar ou corrigir, mas simplesmente agradar. Apesar de parecer fácil, devo dizer que não se tratava de pessoas que têm por hábito a leitura, e por isso os títulos deveriam ser atraentes o suficiente para que seu conteúdo fosse desvendado. O esforço para a designação e para a obtenção destes títulos foi maior do que eu imaginava, mas valeu os custos de tempo, paciência e dinheiro gerados.
Não fiz uma avaliação póstuma mais completa, mas devo dizer que as evidências iniciais foram de um grande sucesso nas minhas intenções. Prometo contar-lhes em detalhes como isso terminou (em outro post).
Outra coisa que me agradou foi a visita à casa de meus avôs paternos (a parte materna já faleceu). Admiro-me com a saúde deles, que aos 80 anos mantêm-se lúcidos e ativos em todos os setores de suas vidas cotidianas. Pensei que meu estilo de vida não me levaria tão longe, mas que uma adequação de hábitos poderia prolongar minha vida útil. Pode uma fatalidade tornar todo o esforço de manutenção da plena capacidade de realização a longo prazo inútil? Sim, claro, mas valendo-me de uma estrutura de pensamento baseada em fatores absolutamente racionais, estatisticamente é mais provável que eu morra de causas naturais, e se eu preservar minha saúde, devo ter mais tempo para experiências que enriquecerão relatos até sabe-se lá quando. Desta forma, a visita natalina me motivou a rever meus hábitos, já que eu estava em frente a pessoas com as quais compartilho boa parte de minha carga genética, e que me mostraram uma perspectiva interessante, especialmente depois de fazer a usual análise retrospectiva de fim-de-ano e de descobrir que há mais planos a serem ainda realizados do que tempo hábil para tal.
Acho que eles nem fazem idéia de como me influenciaram, mas o fizeram.
Espero que suas festas tenham sido igualmente boas, ou até melhores; mas se o seu Natal não foi bom, vá cultivando bons relacionamentos para que o próximo seja melhor.
Feliz Natal (de 2006).








